Reportagem Desenhada | Conversas sobre o Indizível nos Museus

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Reportagem Desenhada
Conversas sobre o Indizível nos Museus
| Publicado em XZibit Art |

Como se diz o indizível nas exposições e nas colecções de museus? Que histórias são essas? O que fica por dizer? Pode-se ou deve-se dizer tudo sobre um objecto ou sobre uma personalidade histórica? Que abordagens são utilizadas para contar o indizível? Estas eram algumas das questões que pairavam no início dmais recente debate da Acesso Cultura, organizado no Museu do Dinheiro, no passado dia 18 de Abril de 2017.

A Acesso Cultura quis assim lançar a reflexão sobre o tema escolhido para o Dia Internacional dos Museus a celebrar-se um mês depois, em 18 de Maio: “Museus e histórias contestadas: dizer o indizível em museus”.

Ao longo da conversa, animada e em tom informal, participaram convidados de alguns museus Portugueses: Clara Vaz Pinto e Xénia Ribeiro do Museu Nacional do Traje; José Pedro Sousa Dias do Museu Nacional de História Natural e de Ciência; Luís Farinha do Museu do Aljube; Maria José Machado Santos e Marta Guerreiro do Museu da Marioneta; e Sara Barriga do Museu do Dinheiro. O debate foi moderado por Ana Rita Canavarro, Museóloga.

Luís Farinha destacou que o indizível no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade é, por exemplo, o silenciamento e o secretismo das histórias de humilhação, clandestinas e abstractas de presos políticos da época da Ditadura Salazarista e que ainda estão vivas. Neste museu o indizível é explorado, por exemplo, através de conversas e visitas guiadas.

No Museu da Marioneta existe uma grande dificuldade em expor os objectos, pois as marionetas são construídas para serem utilizadas por actores facilitadores dos seus movimentos e em contexto de peças de teatro ou performances, explicou Marta Guerreiro. Expor uma marioneta pode ser visto como um contra-senso em relação à sua natureza, não devendo ser exposta como um ser inanimado.

Indizível é também a dificuldade dos museus em comunicar com os visitantes em exposições sobre temas científicos, chamou a atenção José Pedro Dias. Ainda neste contexto, Luís Farinha destacou a dificuldade em fazer compreender aos visitantes a violência física e emocional sentida pelos presos políticos.

Alguns dos convidados defenderam a necessidade dos museus tomarem uma posição, ou seja, de não serem neutros em relação a temas específicos, e também de criarem desconforto nos visitantes, abordando memórias e conflitos dolorosos. Consideraram ainda que os museus podem contribuir para a compreensão mútua e para a reconciliação, mesmo que não criem consensos.

Questionada sobre qual a relevância de “dizer o indizível” do ponto de vista da Acesso Cultura, Maria Vlachou (Directora Executiva) destacou que “É mesmo uma questão de relevância: a relevância dos museus para as pessoas. Cada história que não se diz é uma pessoa a quem não é dado reconhecimento. Esta questão do indizível diz respeito a vários aspectos do trabalho dos museus: às suas colecções, ao que lá está e não está, ao que se mostra e não se mostra, à forma como se interpreta cada objecto, ao perigo das “histórias únicas” (no sentido das versões únicas), às relações que se criam ou não se criam com as pessoas, ao seu envolvimento ou à sua exclusão.”.

A Acesso Cultura é uma associação sem fins lucrativos que tem como missão a melhoria das condições de acesso – físico, social, intelectual – aos espaços culturais e à oferta cultural. Maria Vlachou acrescentou ainda: “Não há condições de criar acesso se não se procura ser relevante na vida das pessoas. Se não se for relevante, podemos muito bem perguntar: Acesso a quê? Para quê?”

A sessão foi traduzida em Língua Gestual Portuguesa por Maria José Almeida, com o apoio da Escola Superior de Educação de Setúbal.

Desenho e texto: Rita Caré
NOTA
O resumo deste debate,
que aconteceu em diferentes cidades em simultâneo,
está disponível AQUI

Crónica Desenhada | Conversas sobre Panfletária e Liberdade

Crónica Desenhada | Conversas sobre Panfletária e Liberdade por Rita Caré
Conversas sobre Panfletária e Liberdade por Rita Caré (clicar na imagem)

Crónica Desenhada
Conversas sobre Panfletária e Liberdade
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No final de março, com a aproximação às celebrações do Dia Português da Liberdade, o 25 de abril, a proposta para Desenhar Conversas sobre “A Liberdade e a Arte Panfletária”  soava tentadora.

A Oficina do Desenho – Associação Cultural (OD), em Cascais, convidou Pedro Afonso e Alexandre Bordalo para falarem e refletirem sobre o tema e sobre o seu trabalho, em convívio com os presentes na sessão. Afonso é artista plástico e ilustrador. Bordalo é fotojornalista. As conversas foram moderadas por Rui Aço, artista plástico e Presidente da OD.

“A Liberdade nem sempre é veiculada pela Arte Panfletária!” avisava-nos o anúncio destas conversas. Tem sido usada como meio de comunicação para a denúncia, através da sátira e da ironia, mas também para manipular os povos através de propaganda política e religiosa.

Conversou-se sobre a liberdade, ou não, de expressão e sobre o papel mais ou menos relevante da Arte Panfletária na sociedade ao longo do tempo, desde o século XVIII, através de pintores, poetas, muralistas, arquitetos e outros artistas. Rui Aço lançou o tema através da abordagem à Fábula do Pássaro Bisnau e ao trabalho de diversos autores Portugueses e de outros países. Entre eles, Almada Negreiros, Delacroix, Siqueiros, Zeca Afonso, Ary dos Santos, Sartre, entre outros.

Os convidados e também o moderador têm grande e prolongada experiência profissional e de vida, o que ficou bem vincado pelas opiniões partilhadas e pelas histórias contadas. Pela noite dentro, cada um dos presentes bebeu chá e desenhou em toalhas de papel de mesa, o que lhe ia na alma, fosse abstrato ou realista, tivesse, ou não, a ver com o tema conversado. A Liberdade para Desenhar não tem limites.

“Conversas Desenhadas” é uma proposta bimensal da Oficina do Desenho – Associação Cultural, em Cascais. Aguardemos, pois, pela proposta com que nos brindará em maio de 2017.

Desenho e texto: Rita Caré

Crónica Desenhada com Jazz de John Coltrane

Crónica Desenhada com Jazz de John Coltrane
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No mês de Março de 2017, a Oficina do Desenho (OD), em Cascais, organizou várias sessões para desenhar a música.

Às 18h daquela sexta-feira chuvosa, o ambiente era animado com alguns jovens a terminar os seus trabalhos artísticos. Os participantes da Oficina Livre do Laboratório Experimental foram chegando. A música que tocava mudou para o jazz do prometido John Coltrane. Ao longo de três horas ouviu-se, por várias vezes, a música “My Favorite Things”, tocada por Coltrane pela primeira vez em 1961.

Desassossegada ao fim de um dia de trabalho, sentei-me e rabisquei no meu caderno. Primeiro, o Miguel Teixeira (arquitecto, artista plástico e Vice-Presidente da Oficina do Desenho) a lavar materiais. Depois, uma das participantes que explorava lentamente as formas de uma folha amachucada. Inspirada pelo momento e pelo som do jazz, permiti-me descontrair e mergulhar finalmente para um lugar onde apenas o desenhar me leva. As minhas linhas dançaram e desapareci, na fuga dos dias, para dentro do papel durante as duas horas que se seguiram.

A Oficina do Desenho é uma associação cultural sem fins lucrativos, fundada em Cascais em 2003, que promove o ensino, a prática e a experimentação das artes visuais e em particular do desenho. As Oficinas Livres do Laboratório Experimental realizam-se às sextas-feiras, das 18h às 21h.

Desenho e texto: Rita Caré

Notícia USkP | Desenhar o “caos” com Nuno Saraiva, um ilustrador político

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Sketchers a desenhar o Caos no Largo do Rato, Lisboa | Foto por Rita Caré

Notícia USkP
| Desenhar o “caos” com Nuno Saraiva,
um ilustrador político |

Por Rita Caré

Nuno Saraiva foi o convidado da actividade “Um Ano a Desenhar para o Futuro 2017”, em 4 de Março de 2017, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Uma das suas actividades principais tem sido a de ilustrador em quase todo o “mundo” editorial Português.

Considera-se um ilustrador político e tem vontade de partilhar o passado dos lugares em desenhos e dessa forma contar histórias sobre o que já desapareceu. Defende que nem tudo o que desenhamos deva ser partilhado e que é importante guardar “tesourinhos” e segredos.

Nuno Saraiva partilhou a sua “primeiríssima” incursão no diário gráfico, em 2008, para uma entrevista com Miguel Esteves Cardoso à revista Visão. Nessa reportagem desenhou o almoço da entrevista, incluindo o escritor, as loiças, o empregado de mesa, textos com pedaços das conversas e comentários seus (considera importante inclui-los para que o desenho se torne uma memória viva).

Uma viagem desenhada a Luanda (Angola) também esteve em grande destaque com a partilha de desenhos e muitas histórias. O ilustrador contou do que gostou, do que o afligiu, das peripécias e de como o caos de Luanda o marcou.

Foi exactamente o tema do “Caos” a proposta para desenhar de seguida no Largo do Rato.

Publicado
Newsletter “Agenda dos Sketchers”  Abril 2017
Associação Urban Sketchers Portugal

O Caos - USkP com Nuno Saraiva by Rita Caré aka Papiro
O meu desenho sobre o CAOS no Largo do Rato, Lisboa

Crónica USkP | Para cá e para lá a ver “passar” o MN Ferroviário

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Desenhos de Rita Caré e de Raquel Sousa

 

Crónica
| Para cá e para lá a ver “passar”
o Museu Nacional Ferroviário |

Por Rita Caré e Raquel Sousa

Viajamos na linha da Beira Baixa muitas vezes. Uma há mais de três décadas de tempos a tempos. A outra muito frequentemente nos últimos anos. O ritual de entrar e viver aquelas horas no comboio é uma “paragem” no Tempo.

Ouvimos música, lemos, tricotamos, pensamos, desenhamos, dormimos… Por entre a contemplação das vistas, há quase dois anos que andamos também a ver o Museu Nacional Ferroviário “passar” para cá e para lá. Um destes dias uma leu os pensamentos à outra ao partilhar um folheto do museu:
– Vamos organizar um encontro de rabiscos com comboios?!

Imaginámos logo extraordinários momentos de desenho, em silêncio partilhado, no Entroncamento de história(as), linhas, máquinas, objectos e complexas estruturas muito desenháveis.

Foi assim que aconteceu o “início do início” do encontro dos Urban Sketchers Portugal e dos Ribatejo Sketchers no Museu Nacional Ferroviário, em 19 de Fevereiro de 2017, no qual participaram mais de 60 pessoas, que viajaram desde o Alentejo, Ribatejo, Lisboa, Beiras, Torres Vedras e região Centro-Oeste, Coimbra, Montemor-o-Velho e Aveiro. Muitas das páginas dos seus cadernos recheadas de comboios e outras peças ferroviárias podem ser vistas no blog dos USkP.

Publicado
Newsletter “Agenda dos Sketchers”  Março 2017
Associação Urban Sketchers Portugal

 

Uma chaminé aqui, outra ali, outra acolá…

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Uma chaminé aqui, outra ali, outra acolá… A Rosário Félix convidou-nos para passarmos uma manhã a desenhar umas chaminés atrás das outras em Campo de Ourique. Estava um frio de rachar a cana do nariz, mas ainda bem que fui! 

Dissemos muitos disparates divertidos para aquecer a alma…

Cada vez me interesso menos pela qualidade dos trabalhos e muito mais pelos momentos bem passados e pelo processo de desenhar. Mudo objectos de sítio para bem da minha conveniência. Uma pessoa tem é que se divertir!

Gosto muito deste caderno para experiências, mas também para usar a aguarela do meu coração!

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Debate – Elitismo e Cultura

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Convidados do Debate “O que é o Elitismo na Cultura?” organizado pela a Acesso Cultura

O debate “O que é o Elitismo na Cultura?” foi muito interessante, mas acho que a Acesso Cultura precisa de organizar mais uns quantos eventos sobre o tema para se desenrolar mais o novelo emaranhado de ideias. A sessão de Lisboa (*) teve muitos participantes, o que é também um indicador de que há quem queira ouvir e falar sobre o tema.

Agora vou ali ver uns quadros do Amadeo Souza Cardoso no Google Images e ouvir o Vira ao mesmo tempo e já venho. Algumas músicas de folclore Português ficam mesmo bem com algumas pinturas do Amadeo…

Tenho as manias de achar que habito num mundo entre uma elite um bocadinho rasca e a “ralé” das massas, porque afinal sou muito multi-cultural, como a maior parte das pessoas que conheço. Toda a gente adora uma bela piroseira, mas ninguém quer admitir! É que como dizia o Marco Paulo: “Eu tenhoooOOOO doiiisssssss Amoooooorreessss…”.

Depois de jantar um Cozido à Portuguesa, ou um Linguado au Meunier, talvez vá num instante usar a caixa de comentários de uns museus para que eles deixem lá de ser elitistas e intragáveis e passem a expor textos CLAROS para que a “ralé” multi-cultural os consiga compreender. Não seria mau se os textos fossem também CONCISOS e estivessem expostos a uma altura digna de leitura ávida por pessoas baixas de estatura, ou baixas por vicissitudes da vida. Se não for pedir muito também poderiam ser um bocadinho ligados às emoções humanas… Confessem lá! Não é muito interessante colocar uma legenda com o texto “homem em tronco nu”, olharmos para o respectivo quadro e descobrirmos um homem em tronco nu sem conseguirmos perceber quem é, ou foi, e porque motivo aquele quadro é importante para estar ali na exposição.

Este post aceso vem a propósito de eu ter ficado um bocadinho desatinada da vida quando recentemente uma pessoa da minha idade, com formação académica “superior”, me declarou com todas as ganas que detestava cultura. Isto ao mesmo tempo que eu observava a sua casa recheada dos mais variados objectos que lhe contam histórias, ela me dizia que quando ia a Paris não queria saber de museus, que adorava as pontes e o rio e que o cheiro lhe ficava na memória. Dizia-me isto tudo como se não estivesse a falar de CULTURA…

P.S.1 O Eduardo Salavisa rabiscou-me. Sou aquela pessoa com uma popa, óculos e um caderno na mão com ares de “nerd”… Lutava comigo para tentar desenhar os convidados assim parecidos com eles próprios.

(* ) A Acesso Cultura terá em breve ALI os resumos dos debates sobre este tema que ocorreram em simultâneo em várias cidades de Portugal.