Entre o deslumbramento e a tristeza no Aquário Vasco da Gama: Reflexão

Este post foi baseado em comentários que fiz no blog da Teresa Ruivo, que publicou uma reflexão muito importante sobre o desconforto e tristeza que sentiu perante a condição de alguns dos animais habitantes do Aquário Vasco da Gama. Não consegui evitar expor longamente a minha reflexão e também a experiência entre o deslumbramento e a tristeza que sinto naquele espaço – ou noutro local com características e objectivos semelhantes – sobretudo quando me vejo confrontada com mamíferos ou outros animais de grande porte. Os desenhos que aqui partilho são todos da Teresa.

 

Otárias no AVG - Teresa Ruivo 2016 (1)
Otária no Aquário Vasco da Gama por Teresa Ruivo

Antes de tudo o mais, defino-me intimamente como bióloga. Ao longo dos anos da licenciatura fui-me especializando na área de investigação em ecologia e comportamento animal. Contudo, desde o início do estágio tornei-me comunicadora de ciência, deixando essas áreas para “trás” ao nível profissional. Mas a minha paixão pelos animais e pelo seu comportamento nunca me abandonará. A propósito, o meu ídolo de criança é Jacques Yves Cousteau, o mais importante comunicador dos mares e dos oceanos do século XX. Era eu muito miúda e ele entrava-me pela casa dentro através de documentários televisivos que me deslumbravam e deram a conhecer seres vivos de todas as formas e tamanhos, desde os seres mais microscópicos à gigante baleia-azul.

A Teresa e eu temos em comum o uso da ferramenta maravilhosa que é o diário gráfico, mas as nossas abordagens são diferentes, sobretudo do ponto de vista emocional. Os desenhos da Teresa interessam-me profundamente, porque parece focar-se naquilo que a atinge profundamente nas emoções. Olho longamente as páginas dos seus diários e sinto que o faz para resolver alguns dos seus conflitos interiores. Já eu, recuso-me a expor nos meus desenhos os meus sentimentos mais íntimos e dolorosos e situações de conflito (com algumas excepções).

Não desenhei nem fotografei a tartaruga nem o Leão-marinho. Nem consegui olhar prolongadamente para ele. Não consegui trazê-los comigo nos meus cadernos ou álbuns, lugares prioritários para o positivo, o belo e o estético. Os dois animais estão-me associados a um sentimento de grande tristeza. Assim que entrei na zona do tanque percebi imediatamente que a Leão-marinho está cego, ou pelo menos quase cega. É um ancião. Possivelmente aquele animal foi apanhado numa situação complexa, poderá nunca ter havido condições para a sua recuperação e posterior devolução ao seu meio ambiente natural marinho. Ou já nasceu em cativeiro.

Tartaruga Marinha no AVG - Teresa Ruivo 2016
Tartaruga marinha no Aquário Vasco da Gama por Teresa Ruivo

Gostava de saber que política tem o Aquário Vasco da Gama para aquele espaço actualmente e para o futuro (pode ser utilizado para acolher animais em dificuldades – ainda bem que existem estes espaços mesmo que não tenham as condições ideais…).

Há muitos casos de situações destas em aquários, zoos e parques de animais. Há motivos que devemos levar a sério e considerar a importância da sua existência no contexto actual (nos últimos dois séculos foram utilizados para fins de investigação científica, para mostrar aos públicos seres que de outra forma nunca teriam contacto e para os mostrar como troféus). Fingir que os problemas não existem, “meter a cabeça na areia”, ou pior ainda ser-se demagógico e extremista, não faz parte do tipo de posturas com as quais me identifico.

Actualmente, penso que existem duas grandes razões para manter alguns animais selvagens em cativeiro (a sua presença mesmo que curta neste tipo de espaços deveria teoricamente – e também por questões de ética – ser aproveitada ao máximo para investigação científica biológica e comportamental para beneficio da protecção das próprias espécies):

1. Foram capturados em situação de doença ou debilidade física por muitos motivos diferentes (provocados pelo próprio homem, por doença do animal ou provocado por outros animais).
2. Nascem já em cativeiro, são usados em programas de recuperação de populações de espécies (ou não, por diferente motivos e complexos). Alguns são preparados para serem inseridos no meio ambiente onde teoricamente pertencem. Outros nunca serão libertados por diferente motivos também complexos (algumas espécies não têm qualquer possibilidade de sobrevivência se não houver condições existentes para tal – que são variadas e também complexas biologica e ecologicamente falando).

Isto não quer dizer que não hajam situações de abuso por esse mundo fora. Claramente que as há. Há que lutar para que estes espaços sejam cada vez menos necessários, mas não me parece que seja adequado fazê-los desaparecer, porque potencialmente têm e terão sempre uma função positiva a cumprir no acolhimento temporário ou permanente de animais com problemas e na preservação de espécies em risco.

Em Portugal e em Espanha há um exemplo muito específico, que vai sendo cada vez mais do conhecimento do público, pela visibilidade que os meios de comunicação social lhe dão: os programas de recuperação do Lince-ibérico (espécie só existente em Portugal e em Espanha e uma das mais ameaçadas do planeta) – consultar colecção de notícias do jornal Público.pt sobre o Lince-Ibérico. Podemos sempre questionar-nos se o investimento financeiro  muito volumoso nestes programas é legítimo e se vale mesmo a pena. O meu objectivo não é dar uma resposta, mas provocar uma reflexão!

Finalmente, quero deixar aqui bem claro que do meu ponto de vista, enquanto profissional da área da biologia e também da comunicação de ciência,  é incompreensível que não haja uma tabela de texto bem visível junto aos grandes tanques explicando os motivos pelos quais aqueles animais estão ali. Isso é o que deveria ser feito, seguindo as melhores práticas de comunicação de ciência e de educação ambiental.

Estes assuntos são muito controversos e delicados.  Considero que o maior problema perante os visitantes é o contexto destes animais estarem ali sem qualquer explicação visível (pelo menos não vi). Se o departamento educativo fizer um bom trabalho nas visitas guiadas os visitantes podem ter acesso a uma explicação. De qualquer forma, não é adequado a inexistência de uma explicação permanente numa tabela de texto…

Vi a tartaruga a “meter-se” com visitantes pondo a cabeça de fora da água e interagindo. Os animais como estes têm Alma [esta não é uma consideração com valor científico, mas apenas pessoal da minha parte]. Apesar de tudo, estes seres vivos não estão Sós. Têm pessoas que os cuidam e que lhes dão atenção. Mesmo que fossem reinseridos no seu ambiente natural sentiriam a falta de quem os cuidou. Já tinham pensado nisso caros leitores? É também por isso que alguns não se conseguem reintegrar no seu ambiente supostamente natural, às vezes depois de anos a serem treinados para isso…

Otárias no AVG - Teresa Ruivo 2016 (2)
Otária no Aquário Vasco da Gama por Teresa Ruivo

Obrigada Teresa pelos desenhos maravilhosos que partilhaste. Ofereceste aos meus olhos desenhos que eu gostaria de ter feito, mas sou incapaz de fazer. E por teres contribuído para que trouxesse a público esta reflexão.

Texto de Opinião de Rita Caré e Desenhos de Teresa Ruivo

4 comentários a “Entre o deslumbramento e a tristeza no Aquário Vasco da Gama: Reflexão”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s